A Mercedes começou a temporada de 2026 no topo do mundo liderando o campeonato, mas um pesadelo silencioso começou a assustar a equipe: a falta de confiabilidade de seus carros. Nas últimas corridas, desempenhos excelentes viraram fumaça por causa de falhas mecânicas muito caras que forçaram o abandono de seus dois pilotos. Agora, enquanto tentam desesperadamente curar um problema nas baterias, a equipe alemã vê a rival Ferrari se aproximar perigosamente na tabela após uma vitória esmagadora.
A Fórmula 1 entrou em uma nova era com regras totalmente inéditas de motores e construção de chassis no ano de 2026. Com carros tão novos na pista, problemas de adaptação são normais, mas para a Mercedes a situação tem sido “muito dolorosa”, segundo as exatas palavras de James Allison, o diretor técnico da equipe (o engenheiro-chefe responsável por todo o projeto do carro).
O drama da Mercedes e as vitórias perdidas ficaram evidentes com quebras em duas das últimas três etapas disputadas. No Grande Prêmio do Canadá no mês passado, George Russell liderava a corrida com tranquilidade quando uma falha forçou o seu abandono imediato. A história se repetiu de um jeito ainda mais frustrante para Kimi Antonelli no domingo passado, durante o Grande Prêmio da Espanha. O jovem piloto estava na segunda posição, segurando um pódio quase certo, quando seu carro modelo W17 sofreu um desligamento elétrico total faltando apenas três voltas para a bandeirada final. Até mesmo a McLaren, que atua como uma equipe cliente (uma escuderia que compra e corre com os motores fabricados pela Mercedes), sofreu com problemas em sua unidade de potência (o conjunto do motor) nestes primeiros meses da nova era da categoria.
Depois de investigações intensas, a Mercedes acredita que finalmente foi direto ao coração do defeito. Em participação no programa de rádio “Nu Silver Arrows”, James Allison explicou que, embora as falhas nos vários carros não sejam totalmente idênticas, todas elas nascem na mesma grande área do equipamento: a bateria. O engenheiro destacou que a equipe já entendeu a maioria das áreas de risco no sistema. A expectativa agora é que a sorte mude a favor da Mercedes assim que eles começarem a colocar os novos módulos (a palavra técnica que eles usam na garagem para se referir à bateria) nos carros no decorrer da temporada.
Allison aproveitou para dar uma verdadeira aula aberta de como a equipe reage a um carro quebrado. Ele explicou que todo engenheiro precisa aceitar que peças vão falhar quando você busca o limite do rendimento. O grande objetivo deles é garantir que essas falhas aconteçam apenas em laboratórios ou pistas de testes, e nunca na hora da corrida, quando pontos do campeonato estão em jogo. Quando acontece um DNF (sigla em inglês para “Did Not Finish”, ou “não terminou a prova”), a Mercedes enxerga isso como uma falha direta nos processos internos da fábrica para entregar velocidade sem as desvantagens da quebra.
A solução contra as quebras é desenhada em duas etapas principais. Em um primeiro momento, antes mesmo de entenderem 100% o que deu errado, a equipe dá um pequeno passo para trás e se torna cautelosa, pedindo ao piloto que force menos o carro para dar uma “vida mais fácil” às peças frágeis. Em paralelo a isso, um grupo diferente de especialistas trabalha dia e noite na fábrica para descobrir a causa raiz da falha, construir uma peça nova, provar que ela aguenta o tranco e, finalmente, mandar para a pista uma solução de fato curativa, permitindo que os pilotos voltem a “espremer” o motor no limite.
Essa necessidade da Mercedes de tirar o pé do acelerador para não quebrar cobrou o seu preço na Espanha. Mesmo antes do carro de Kimi Antonelli “apagar” nos minutos finais, a Mercedes já estava a caminho de sofrer a sua primeira grande derrota em corrida na temporada. Lewis Hamilton, agora brilhando na Ferrari, uniu um ritmo muito forte com um ótimo cuidado no desgaste dos pneus para superar as Mercedes. Hamilton contou ainda com a ajuda de um Virtual Safety Car (um período da corrida onde os pilotos são obrigados a pilotar lentamente por motivos de segurança), que caiu em um momento perfeito para ele encaixar uma estratégia de três paradas nos boxes. Com essa tática, ele tomou a liderança nas voltas finais e cruzou a linha de chegada quase 20 segundos (19.6s) à frente de George Russell. A força da Ferrari assustou desde o sábado de classificação, quando Hamilton ficou a menos de um décimo de segundo de roubar a pole position (a primeira colocação de largada) do mesmo Russell.
A chave desse sucesso avassalador da Ferrari foi a introdução de um gigantesco pacote de atualizações (modificações nas peças do carro para deixá-lo mais rápido e aerodinâmico) levado para a etapa espanhola, enquanto os rivais, incluindo a Mercedes, levaram apenas peças pequenas. James Allison acredita que a ordem de forças das equipes continuará sendo ditada por essa guerra de atualizações ao longo do ano. Ele lembrou que, como as novas regras de 2026 são muito “jovens” e pouco exploradas, é muito fácil para as equipes encontrarem muito desempenho extra escondido no projeto.
A Mercedes havia largado na frente no começo do ano construindo um carro superior. No entanto, Allison admitiu que um pacote de atualizações do tamanho do que a Ferrari trouxe vale praticamente toda aquela vantagem que mantinha a Mercedes em uma zona de conforto na frente do pelotão. A notícia boa para os fãs da equipe alemã é que o time de fábrica garante que não está desarmado nessa luta. A Mercedes deve receber grandes atualizações no seu carro no momento certo e, se o trabalho de desenvolvimento na fábrica for bom, Allison tem a total confiança de que eles vão restabelecer a enorme folga de ritmo do início do ano.
A corrida pelo desenvolvimento em 2026 ditará quem vai erguer o troféu. Por enquanto, a Mercedes pode respirar: eles lideram o valioso Mundial de Construtores (a tabela de pontuação que premia a melhor equipe de fábrica) com formidáveis 72 pontos de vantagem sobre a vice-líder Ferrari. Na tabela de pilotos, Kimi Antonelli nada de braçada com 41 pontos acima de Hamilton e 50 pontos à frente de seu colega Russell. Apesar da matemática jogar a favor, a narrativa na pista mudou. A Fórmula 1 pune quem congela no tempo e, se a Mercedes precisar continuar poupando seus motores para não quebrar baterias preciosas, perderá pontos que farão muita falta. Com a Ferrari voando graças às suas atualizações e o Grande Prêmio da Áustria prestes a acontecer na próxima semana, o campeonato ganhou o choque de realidade que o público pedia. A era da dominância fácil acabou.
