Ferrari adota estratégia da Mercedes para otimizar telemetria na F1

A Ferrari iniciou testes com uma astuta manobra de qualificação desenvolvida pela Mercedes, buscando uma vantagem crucial na batalha pela pole position na Fórmula 1. Este ‘truque’ de ‘lift-off’ (tirar o pé do acelerador) permite maximizar a entrega de energia do sistema híbrido nos momentos decisivos da volta, uma tática que se tornou visível através da análise da telemetria F1 e que já rendeu frutos à equipe alemã.

A inovação da Mercedes contorna as rigorosas regras de ‘ramp down rates’ (taxas de redução de energia) da FIA, que exigem que os carros diminuam gradualmente a potência da bateria ao final de uma volta de qualificação. Enquanto os rivais precisam reduzir a entrega em etapas de pelo menos 50kW por segundo, a Mercedes encontrou uma brecha legal para manter a potência máxima de 350kW até a linha de chegada, garantindo um breve, mas significativo, impulso de velocidade final.

A Engenharia por Trás do ‘Lift-Off Trick’

Inicialmente, uma versão anterior dessa estratégia, que envolvia um desligamento de emergência do MGU-K (Motor Generator Unit – Kinetic), foi proibida pela FIA após o Grande Prêmio do Japão. No entanto, a Mercedes rapidamente encontrou uma nova interpretação do regulamento, ressuscitando a tática a partir do Grande Prêmio da Grã-Bretanha. A regra permite que os pilotos não cumpram a taxa de redução se tirarem o pé do acelerador antes que a bateria atinja 0% de carga.

Após um intenso trabalho de simulação e ajustes finos, a equipe de Brackley (base da Mercedes) desenvolveu um sistema onde os pilotos Kimi Antonelli e George Russell recebem um aviso sonoro em seus fones de ouvido, indicando o momento exato para aliviar o acelerador. Essa precisão permitiu a Antonelli conquistar a pole position nos Grandes Prêmios da Grã-Bretanha e da Bélgica, demonstrando a eficácia do método.

A análise da telemetria da volta de pole position de Antonelli na Grã-Bretanha revelou claramente a aplicação dessa estratégia, com um pico de velocidade sustentado na reta final da volta, onde outros carros já estariam em processo de redução de energia.

Ferrari em Busca da Vantagem: Testes e Riscos

Com a legalidade da tática confirmada pela FIA e seus benefícios evidentes, era apenas uma questão de tempo até que outras equipes começassem a investigar e replicar o ‘lift-off trick’. A Ferrari foi uma das primeiras a agir, realizando testes durante os treinos livres do último Grande Prêmio da Hungria com Charles Leclerc e Lewis Hamilton.

Os dados de telemetria do SF-24 (carro da Ferrari) de Leclerc na sexta-feira mostraram o piloto aliviando o acelerador ao se aproximar da linha de cronometragem, permitindo que sua velocidade ‘rolasse’ em vez de cair abruptamente. Contudo, a equipe de Maranello (base da Ferrari) concluiu que o circuito de Hungaroring, rico em energia e com uma reta final relativamente longa, não oferecia ganhos suficientes para justificar o risco de empregar a técnica na qualificação.

A eficácia do ‘lift-off trick’ varia significativamente dependendo do traçado da pista. Ele é mais vantajoso em circuitos com pouca energia disponível e uma distância curta entre a última curva e a linha de chegada, como Melbourne, Silverstone e Spa-Francorchamps. O ganho estimado é de aproximadamente 0.050 segundos, uma margem que pode ser decisiva, como visto no GP da Hungria, onde Hamilton perdeu a pole para Lando Norris por apenas 0.012 segundos antes de sua penalidade.

Apesar do potencial de ganho, a estratégia carrega um risco considerável: se o piloto falhar em aliviar o acelerador antes que a bateria esteja completamente vazia, isso constitui uma violação das regras de ‘ramp down’ da F1, resultando em desclassificação. Assim, as equipes precisam ponderar cuidadosamente o benefício de um tempo de volta melhor contra o perigo de uma execução imperfeita.

Análise Neax61

A incursão da Ferrari nos testes do ‘lift-off trick’ da Mercedes sublinha a intensidade da competição na Fórmula 1 moderna, onde cada milésimo de segundo é disputado com ferocidade. Em um campeonato tão apertado, com múltiplas equipes lutando por vitórias e o título mundial ainda em aberto, a busca por qualquer vantagem legal é implacável. A decisão de não usar a tática na Hungria demonstra uma abordagem calculista, priorizando a segurança e a certeza do desempenho em vez de um ganho marginal em um circuito desfavorável.

É provável que os testes de Maranello no Hungaroring sejam apenas o prelúdio para a implementação do ‘lift-off trick’ em eventos futuros, especialmente em pistas onde o benefício é mais pronunciado e o risco pode ser melhor gerenciado. A capacidade de extrair o máximo de energia do sistema híbrido na linha de chegada pode ser o diferencial que a Ferrari precisa para converter mais posições de largada em poles, elevando ainda mais a fasquia da engenharia e da estratégia na categoria.

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